Você já ouviu falar de Aída dos Santos?

Ela foi a primeira mulher brasileira a disputar uma final olímpica. Ficou em quarto lugar no salto em altura na competição de Tóquio, em 1964, sendo a única mulher da delegação do Brasil na ocasião.

Contra todos os prognósticos, Aída dos Santos fez história nas Olimpíadas de Tóquio

Aída dos Santos é uma simpática senhora moradora do Fonseca, Zona Norte de Niterói, mas quem não a conhece não imagina que ela foi, durante 32 anos, a brasileira com melhor desempenho na história dos Jogos Olímpicos. Desde nova, ela sempre mostrou que não aceita que dizem que ela não é capaz ou que não pode fazer algo que ela deseja. O desafio era sua motivação.

Vida

Quando estudante, era uma menina pobre, negra e moradora do Morro do Arroz, em Niterói, que gostava de voleibol e tentava jogar no Caio Martins, mas nem sempre tinha gente para praticar. Certo dia, sua amiga fez uma chantagem que mudou sua vida:

“Não teve quórum para jogar vôlei e minha amiga me chamou para fazer atletismo. Disse que se eu não fizesse, não me daria carona em sua bicicleta. Saltei 1,40 metros, apena 5 centímetros a menos que o recorde estadual”, lembra Aída.

Seu feito foi capaz de assustar todos os que estavam no ginásio e aí ela conheceu o que era salto em altura.

Apesar do seu incontestável talento, sua família nunca quis que ela fosse atleta. Após vencer uma competição saltando 1,55m, Aída chegou em casa feliz com a medalha. Ao invés de ganhar um parabéns, levou uma bronca do pai, que reclamou que ela não ganhei dinheiro com isso e que pobre tinha que trabalhar.

Essa questão fez com que ela fizesse o inverso com seus três filhos, Rogério, Patrícia e Valeska, que sempre receberam incentivos da mãe para praticar esportes. Valeskinha, como é conhecida, foi campeã olímpica de vôlei nos Jogos de Pequim, em 2008.

A falta de apoio familiar e o pouquíssimo dinheiro que tinha nunca impediu a atleta seguir em frente com sua vitoriosa carreira. Aída saltou 1m65 e foi avisada que tinha batido o índice de classificação para as Olimpíadas de Tóquio de 1964.

Antes de ir, seu técnico avisou que ela iria cair na eliminatória: “Agradeci. O que ele falou me deu força” disse a saltadora.

Dificuldades

Sem intérprete, apoio e até material esportivo, Aída era a única mulher da delegação brasileira em Tóquio. Seu desespero acabou chamando atenção de um atleta cubano, que a ajudou a arrumar uma sapatilha para corridas:

– Em Tóquio eu chorava todos os dias. Ficava sozinha. Não tinha nem trena e por isso marcava com meu pé — lembra Aída.

Mesmo diante de todas essas dificuldades durante a saga, Aída saltou incríveis 1,74m que por pouco não lhe rendeu o pódio, entrando para sempre na memória do esporte olímpico brasileiro. Essa marca foi o recorde nacional por mais de três décadas.

Devido ao feito, foi organizada uma festa para ela, que a própria dispensou (“Não me ajudaram em nada”, disse). Essa falta de apoio foi exposta durante uma entrevista pela atleta, o que lhe rendeu, segundo ela, o corte dos Jogos Olímpicos de 1972, em Munique, na Alemanha.

Racismo

O racismo também foi algo presente em sua trajetória. No Botafogo, um dirigente disse a ela que se pudesse “tiraria os pretos do clube”. A resposta foi direta:

– Disse a ele para tirar os títulos que os negros conquistaram também. Em 1964, quando o Vasco acabou com os esportes olímpicos, eu fui para o Botafogo e minha colega foi para o Fluminense. Um dia na biblioteca do clube perguntaram de quem ela era empregada.

Ela disse que era atleta. Falaram que no Fluminense não tinha atleta negro e pediram para ela sair do local. No Vasco não tinha racismo. Hoje em dia não mudou nada em relação ao racismo. É tudo uma máscara — conta a recordista.

No esporte, Aída identificou uma oportunidade única para estudar, por isso sempre deu prioridade a ele. Deixou até de casar para ir para o Peru competir. Competiu até grávida de 3 meses, em 1972. Através da prática esportiva, a atleta passou a estudar Pedagogia e a dar aulas de Educação Física na caríssima Gama Filho.

João Havelange, o então todo poderoso presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), a chamou trabalhar na entidade. Recebeu um “não” e um pedido bolsa de estudos. Foi valorizando o esporte e a educação que ela conseguiu enviar 10 meninas para os Estados Unidos com bolsa, inclusive uma de suas filhas.

Aos 81 anos, Aída segue atleta. Joga vôlei no Clube Militar, esporte que lá atrás não tinha com quem jogar. Contrariando a falta de apoio familiar e financeiro, sempre saltando por cima das dificuldades, ela conseguiu deixar uma marca histórica e serve hoje de inspiração para muitos atletas do Brasil:

– Para mim, querer é poder. Gosto de desafios. Nunca pensei em desistir — finaliza Aída, resumindo a força que possui e a capacidade de dar a volta por cima diante de qualquer dificuldade.

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