Ceila Santos é uma jornalista e ativista que luta contra violência obstétrica sofrida por mulheres. Junto com outros profissionais criou o blog Amigas do Parto onde escreve sobre o direito de mulheres ao parto humanizado.

O desejo frustrado de um parto normal no nascimento de sua primeira filha fez Ceila Santos se tornar ativista. Essa transformação aconteceu por meio do movimento do parto humanizado. Ao encontrar o relato de centenas de mulheres que reconheceram a experiência da cesárea desnecessária na internet, Ceila passou a estudar o assunto.

“Descobri que a ciência tinha outros jeitos para eu parir e comecei a refletir sobre a liberdade de escolha que o movimento trazia como cerne do discurso ativista”, conta ela.

A partir daí, se envolveu com organizações voltadas para a saúde da mulher e primeira infância e com a difusão de informações sobre o tema, tanto no blog Desabafo de Mãe, que manteve por nove anos, como em revistas que produziu a partir de financiamento coletivo.

Também enveredou por militâncias mais amplas, a partir do Fórum de Mulheres da Zona Oeste e do Conselho Participativo Municipal de São Paulo, do qual foi conselheira, e se convenceu da importância da participação social para uma cidadania plena.

“Mesmo sabendo que meu umbigo social é composto por 900 pessoas e que devo atingir umas trinta, achei que era com isso que precisava começar. A participação feminina na política precisa aumentar”, declarou.

Maternidade e ativismo

O ativismo de Ceila nasceu de uma crise existencial quando ela descobriu que uma cesárea podia ser desnecessária.

“Quando entendi que meu parto poderia ser diferente porque havia posturas diferentes entre os profissionais tradicionais e os ativistas, sofri, mas entendi que o parto da minha filha era o melhor que aquele médico podia fazer diante da história da medicina. Ficou um desejo não realizado.”, conta.

“O que mais fiz durante a gestação foi me informar sobre partos. Lia tudo que a imprensa publicava para gestantes ou livros indicados pelas amigas jornalistas. Então, quando o movimento declarou que a cesárea desnecessária era falta de informação, fez muito sentido para minha lembrança porque, até então, nunca havia lido na imprensa sobre aquelas denúncias que as mulheres faziam em seus relatos”, relembra Ceila.

Em sua jornada Ceila encontrou muitas vozes querendo entender a dor de não ter parido, descobrindo que seus partos poderiam ser diferentes, denunciando condutas médicas, e muitas mulheres identificando que passaram, de fato, por eventos que envolviam erros médicos graves por puro hábito profissional.

“Passava muito tempo lendo relatos de partos e comecei a entrar em contato com essas mulheres. Mapeei 356 blogs de mães. Comecei a viver um processo investigativo impulsionado pela minha experiência jornalística sem perceber que eu não estava mais dentro do âmbito editorial, protegida pelo salário da editora ou pelas relações de trabalho. Estava fazendo aquilo como blogueira, sozinha, sem dinheiro pra pagar conta. Foi aí que eu encontrei o movimento Parto do Princípio, que luta pela promoção da autonomia das mulheres, principalmente a defesa e a promoção dos direitos sexuais e reprodutivos”.

Militância

Ao pesquisar para o segundo número da revista, convidei 28 mulheres para escrever artigos. Foi por causa da pergunta “onde vou parir, por que devo refletir sobre isso?”, que entrei no curso da Prefeitura de São Paulo sobre Política para Mulheres, que formou os fóruns das mulheres nas regiões da cidade.

O Fórum de Mulheres da Zona Oeste, do qual participava, foi muito ativo e um dos poucos que se desenvolveu como a Prefeitura desejava. A partir do Fórum, me candidatei ao Conselho Participativo Municipal e fui eleita pelo Distrito do Morumbi.

Tanto no Fórum de Mulheres quanto no Conselho Participativo, conheci mulheres militantes de todas as áreas e entendi como funcionava o preparo das ativistas para as audiências públicas e conferências.

Fiquei apaixonada pela ideia da participação social, comecei a me interessar pelo meu bairro, descobri até que moravam indígenas na vizinhança. O que vivi no Conselho Participativo me fez olhar com muito amor para São Paulo, mas que não dava pra praticar aquilo sem estar envolvida com trabalho porque era muita dedicação.
Qual foi o aprendizado na vivência como conselheira participativa?

Em nenhum lugar da minha vida aprendi tanto como lidar com meus preconceitos do que na política, porque lá você tem que ouvir o outro. O Conselho tinha um mandato de dois anos e peguei a migração do governo do Haddad para o Dória, quando mudou tudo.

Percebemos que a forma participativa era uma política pública do PT, e não da Prefeitura. Aprendi que quero trabalhar na política, embora não tenha vontade de ser vereadora, por exemplo. Gostaria que houvesse mais pessoas conscientes da potência da cidadania para que criassem espaços de participação nos seus bairros vinculados aos espaços de poder, porque a política de participação não acontece por um programa de partido, mas pela consciência de um povo.

Depois de compreender a crise existencial que vivi com ativismo pela forma como estamos organizados, todos movidos pelo interesse econômico, entendi que a Pedagogia Social poderia ser meu campo de atuação.

Hoje, faço parte da Associação de Pedagogia Social, ampliada pela antroposofia, e pesquiso uma metodologia para formação de juízo, que acredito que pode ser o caminho da minha autonomia profissional, já que hoje sou uma mulher dependente economicamente de familiares.
Por que resolveu militar por votos em mulheres nas eleições?

Foi um impulso. Estava começando a campanha eleitoral em plena pandemia e me deu desespero. O que vai acontecer? Preciso fazer algo, será cada indivíduo nas redes e vai ter que funcionar. Mesmo sabendo que meu umbigo social é composto por 900 pessoas e que devo atingir umas trinta, achei que era com isso que precisava começar.

Decidi contar minha história a partir da consciência de gênero adquirida no Fórum de Mulheres da Zona Oeste, onde desenvolvi o sonho de ter mais mulher na política.

Fizemos um evento nas eleições municipais de 2016. Resolvemos fazer um encontro com candidatas e houve muita discussão sobre se deveríamos selecionar as candidatas. Para mim, isso não fazia sentido em um cenário onde eram menos de cinco mulheres entre os 55 vereadores de São Paulo. Acreditava que tínhamos que conhecer as mulheres que estavam se arriscando a se candidatar.

Meu trabalho foi mandar convite para todos os partidos, passei uns quatro dias enviando e-mails à unha. Reuni 23 candidatas, mas como haviam me prevenido, a maior parte que apareceu era de direita sem muita identificação com o público presente.

Desta vez, resolvi fazer sozinha, contando nas redes sobre as ativistas que conheci e que são candidatas. Criei uma série no meu Instagram – Vote em uma Mulher em SP -, onde conto como as conheci e falo sobre elas. São dez candidatas que conheci durante essa jornada e posso indicar. Pretendo chegar a 23 com a indicação de outras ativistas. Precisamos muito aumentar a participação feminina em espaços como a Câmara Municipal.

Gostou da matéria?
Lembre de deixar seu comentário aqui

 

 

Siga ela no Instagram @ceilasan
Saiba mais sobre ela em Conexão Planeta
Saiba mais sobre o trabalho dela em Portal dos Jornalistas