Você precisa conhecer Elizandra Cerqueira. Sabe por que?

Ela coordena o projeto Mãos de Maria Brasil, projeto que une bistrô, aulas de culinária e práticas de empreendedorismo para mulheres terem sua própria renda.

Ela é uma empreendedora social incansável que também mobiliza a comunidade com o projeto Mãos de Maria Brasil, um negócio social administrado em parceria com Juliana da Costa Gomes.

Juliana é de Paraisópolis, onde vive com os três filhos e atua também como diretora da Associação das Mulheres e da União dos Moradores.

O projeto Mãos de Maria une um bistrô, que produz comida para vender (em marmitas ou buffet), e um programa para ensinar mulheres a cozinhar. A iniciativa é tão bem-sucedida que já ganhou reconhecimento internacional – o prêmio Stop Hunger Women’s Awards, em 2018, por promover geração de renda, sustentabilidade e empoderamento feminino.

“O empreendedorismo é uma oportunidade para que nossas mulheres possam mudar suas vidas e vencer o ciclo da violência”, diz Elizandra sobre a iniciativa. “Nós, mulheres, somos protagonistas no processo de transformação da comunidade”, complementa Juliana.

A operação do bistrô conta atualmente também com serviços de delivery. “Esse ano vamos atender 55 mulheres da comunidade, que produzirão marmitas. Fortalecemos nossas mulheres para que elas possam empreender. Nosso empoderamento começa na cozinha”, diz Elizandra. Para participar, cada uma das integrantes do projeto ganhou geladeira, fogão, jogo de panelas, kit insumo e gás.

Segundo a dupla que coordena o projeto, a ideia do Mãos de Maria surgiu coletivamente, junto com amigos e apoiadores. “Eu e Juliana enxergamos uma oportunidade de empreender com comida e de apoiar outras mulheres da comunidade”, explica Elizandra.

“Desta forma, construímos um ciclo, no qual capacitamos mulheres da comunidade em situação de vulnerabilidade, como as que passam por violência doméstica, mas também fomentamos o empreendedorismo e geramos emprego e renda através dos serviços vendidos pela Mãos de Maria Brasil”, conta ela.

Desafios da pandemia

Como na maioria das áreas periféricas do país, o impacto da pandemia do novo coronavírus desestruturou a vida de gente não tinha garantida suas necessidades básicas. Paraisópolis, nesse cenário, foi um dos lugares onde a comunidade local se uniu mais fortemente para fazer o enfrentamento das crises sanitária e econômica.

“A maior parte da população perdeu o emprego, boa parte dessas pessoas são mulheres. O vírus fez crescer a desigualdade social e a fome bateu forte por aqui”, diz a empreendedora e ativista.

Para ajudar a combater essa situação, o projeto aumentou a capacidade de produção de marmitas, contratando mulheres que precisavam muito de renda: “De março a setembro, o Mãos de Maria Brasil entregou 850 mil marmitas. Elas foram para pessoas que, infelizmente, não tinham como se alimentar por causa do desemprego. A maior parte mulheres, mães solo”, diz Elizandra.

Elizandra e Juliana assumiram a frente no combate à fome, potencializado pelos efeitos da pandemia de Covid-19 entre a população mais pobre: “Fortalecemos nossa rede e conseguimos acolher nossas mulheres. Nunca foi só comida”, reforça ela. O projeto já capacitou mais de 3500 delas desde setembro de 2017, quando surgiu.

Trasnformação

O trabalho no Mãos de Maria transforma não só financeiramente, dando perspectiva de futuro e sustento imediato, como também fortalece os laços entre as mulheres, garantindo suporte e força principalmente para aquelas em estado de vulnerabilidade. Elas são, em sua maioria, aquelas que sofrem violência, dependem do companheiro financeiramente e/ou têm baixa escolaridade.

“De março a setembro, o Mãos de Maria Brasil entregou 850 mil marmitas. Elas foram para pessoas que, infelizmente, não tinham como se alimentar por causa do desemprego. A maior parte mulheres, mães solo”

“Vivi um relacionamento abusivo, quase virei estatística de feminicídio. O Mãos de Maria Brasil surgiu para ser o sim para as mulheres que viveram ouvindo não”, afirma Elizandra.

Ela repete uma máxima a qual toda a sociedade deveria saber de cor: “Quando uma mulher começa empreender ela mexe em toda estrutura do seu ciclo social, transforma a sua vida e a da família. Eu e a Juliana ficamos felizes por poder contribuir para empoderamento das mulheres que moram nas favelas”.

Como muitas mulheres que trabalham no enfrentamento à violência de gênero no Brasil, Elizandra ressalta a importância da Lei Maria da Penha e da Lei do Feminicídio como política pública. Mas nas comunidades pobres é preciso garantir, de maneira mais presente, a segurança de quem denuncia homens agressores.

“Ainda é um desafio garantir a segurança da vítima, o cumprimento da lei e o atendimento correto. Os canais de denúncia também são fundamentais, porém o processo ainda é demorado. Nossa luta hoje deve ser para melhorar esses serviços, assim mais vidas podem ser salvas.

Temos que buscar com que a mulher periférica possa ter seus direitos garantidos, respeitados e cumpridos”, enfatiza uma das criadoras do Mãos de Maria.

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