À medida que cresce a participação das mulheres nos espaços políticos institucionais, também cresce a reação a essa mudança: mulheres que entram para a política precisam lidar com diversos ataques, ameaças e tentativas de deslegitimação, que acabam tornando o custo de escolher esse caminho muito alto e tem como objetivo preservar a histórica dominação masculina sobre esses espaços. Esse fenômeno é chamado de violência política de gênero.

— A violência política de gênero é toda ação que tenha como objetivo impedir o ingresso ou exercício das mulheres na política e pode ocorrer antes, durante ou depois do período eleitoral — define Roberta Eugênio, pesquisadora do Instituto Alziras.

Não é de hoje que deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) convive com esse tipo de violência. Ela é percebida pela parlamentar desde o seu primeiro ano como vereadora de Niterói, cargo que exerceu entre os anos de 2017 e 2019. No início, os ataques eram verbais e nas redes sociais.

À medida que o tempo foi passando e a disputa política no Brasil se acirrando, a violência se intensificou com injúrias raciais e ameaças à vida. Mãe da pequena Moana Mayalú, de quase cinco meses, a deputada de 32 anos conta que, durante a gestação, chegou a sofrer ataques endereçados a sua maternidade, em que os agressores sugeriam que ela, defensora do direito ao aborto, abortasse a filha.

— Dentro do Congresso, já ouvi ataques racistas como “volta para a senzala”, “negra nojenta” e “volta para a favela”. Também já fui cantada dentro do plenário. Hoje, presencio o momento mais difícil da minha trajetória, com a ampliação do nível de risco a contra a minha vida — conta a deputada, que teve que deixar o Rio de Janeiro para garantir sua segurança após ser notificada do conteúdo de mensagens de áudio que chegaram por meio do Disque Denúncia Rio, em que ela é ameaçada de morte.

A deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ) participa de reunião da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, em novembro de 2019 Foto: Pablo Valadares / Câmara dos Deputados
A deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ) participa de reunião da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, em novembro de 2019 Foto: Pablo Valadares / Câmara dos Deputados

As ameaças mais recentes, feitas com riqueza de detalhes, fizeram com que, em setembro, Petrone acionasse a Organização das Nações Unidas (ONU). A denúncia da parlamentar pedia a ONU explicações do governo brasileiro sobre o seu caso e sobre o assassinato de Marielle Franco, além de solicitar um plano para agir contra a violência política de gênero no Brasil.

— Quando uma mulher eleita é ameaçada de morte, essa atitude limita o exercício pleno do mandato. Se antes eu podia circular livremente, agora preciso andar em um carro blindado e estou morando em outro estado. A violência política de gênero torna inviável o mandato de mulheres negras — diz.

Formas de violência

A violência política de gênero pode se manifestar de diversas formas, e não só na agressão física ou sexual. Flávia Biroli, professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) e autora de “Gênero e desigualdades: limites da democracia no Brasil”, afirma que ela também pode ser psicológica, simbólica e econômica.

— Quando há restrição ao suporte econômico das mulheres, como no caso brasileiro, com denúncias de candidaturas laranjas, percebemos que existe, junto com a violência econômica, também a ameaça e o assédio, porque ela está ligada a ilegalidade — afirma a pesquisadora.

— Na rede existe a violência simbólica, mas qual o limite? As organizadoras do movimento “Ele Não” em 2018, por exemplo, sofreram violência na internet em forma de ameaças, que chegaram a seus celulares. Mas uma também foi surpreendida em casa e agredida. Esse limite entre uma coisa e outra nem sempre é claro, há uma continuidade — afirma a professora, explicando que a violência simbólica também tende a ser mais difusa:

— Pode estar presente na mídia, quando se expõe a vida sexual de mulheres de maneira diferente que a dos homens, por exemplo.

Biroli ressalta que a violência política de gênero tem se manifestado muito por meio das redes sociais, atingindo principalmente mulheres mais jovens, algo que tem causado preocupação.

É o caso da candidata ao cargo de vereadora no município do Rio de Janeiro, Letícia Arsênio, de 25 anos, do partido Novo. Ela, que está estreando na corrida eleitoral, desabafa que o ambiente político é mais difícil para as mulheres:

— Os desafios e preconceitos que sofri foram relacionados a minha idade e por ser mulher. Já fui deslegitimada por ser uma jovem na política e já ouvi “que era uma menina ignorante na área”. Infelizmente, têm homens que enxergam as mulheres de maneira muito atrasada e sexista. Nas redes sociais, já recebi mensagens de caras (sic) dizendo que votariam em mim se eu saísse com eles e também imagens não solicitadas de suas partes íntimas — relata.

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