Ao menos duas influenciadoras digitais usaram o Instagram nos últimos dias para denunciar agressões —e pedir socorro. Pétala Barreiros publicou uma série de vídeos em que relatava violência física e psicológica sofrida durante o relacionamento com o empresário do ramo musical sertanejo Marcos Araújo. Já Kedma Oliveira publicou imagens em seus Stories em que aparecia muito machucada, conta ter sido agredida pelo filho de seu namorado e pediu que os seguidores chamassem a polícia.

Mas o que nós podemos de fato fazer quando nos deparamos com conteúdos estarrecedores assim nas redes sociais? Como ajudar essas mulheres que estão implorando por socorro a quem está do outro lado do celular?

Chame a polícia quando souber a localização da vítima

Especialistas no tema explicam que, se a violência estiver ocorrendo naquele momento em que a mulher está postando seu depoimento, como fez Kedma nos stories, e os seguidores souberem de sua localização, devem chamar a polícia (190) na hora. Ela postou, inclusive, uma foto em que se vê o endereço de onde se encontrava.

“Se a vítima está numa situação de risco, o seguidor tem que chamar a polícia. É a mesma situação do vizinho escutando violência grave. Desta forma, a Polícia Civil pode instaurar inquérito. Mas se não tiver endereço da vítima, não adianta”, alerta a defensora pública Flávia Brasil Barbosa do Nascimento, coordenadora de Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública do Rio de Janeiro (DPRJ).

A diretora do Departamento Geral de Polícia de Atendimento à Mulher do Rio de Janeiro (DGPAM), delegada Sandra Ornellas, endossa. Ela explica que mandar link de uma página em que a mulher pede ajuda pode até ajudar, mas é um processo mais difícil, já que será preciso contar com pessoas especializadas para conseguir a localização do celular da vítima. Por isso, ela frisa, é importante que a própria mulher que está sofrendo a agressão chame a polícia.

“Já conseguimos localizar o telefone de uma vítima que apareceu em vídeo sendo enforcada, mas levou três dias para isso. Então, quando um seguidor encontra uma pessoa pedindo ajuda, ele deve tentar acalmá-la e orientá-la a procurar um órgão oficial de denúncia, ajudar a encontrar uma delegacia de mulheres. Essa é a principal ajuda que a gente pode dar num momento como esse, senão nada de efetivo é feito.”

No entanto, expor o agressor nas redes sem um Boletim de Ocorrência pode prejudicar a vítima, atentam as especialistas. Mesmo julgando ter provas suficientes da violência, caso não haja um registro oficial, a vítima pode estar sujeita a uma ação por danos morais.

No caso de Pétala, por exemplo, mesmo com o registro e com medida protetiva, ela foi proibida pela Justiça de citar o nome do ex-companheiro. Em seu Instagram, Marcos argumentou que a exposição foi “mentirosa e equivocada”.

“Particularmente, acho que publicar nas redes é uma exposição desnecessária. O agressor pode entrar com uma ação contra ela”, explica a advogada Iaci Alves Bonfim, da Asbrad (Associação Brasileira Defesa da Mulher, Infância e Juventude).

As pessoas têm impressão de que levar para as redes vai agilizar o processo, mas elas têm que ligar para o Disque 100 e o Ligue 180 e procurar uma delegacia. De preferência especializada, porque dali ela será encaminhada para toda uma rede de apoio, como abrigo e UPA (Unidade de Pronto Atendimento.

Segundo Iaci, caso a vítima não consiga comprovar quem foi o agressor, ela pode buscar reparação de direito de imagem. “A mulher precisa formalizar a prova no canal correto. Ela tem que saber que a última palavra dentro do sistema de garantia de direito é a da Justiça”, completa a delegada Sandra Ornellas.

A defensora Flavia concorda com o cuidado, mas aponta um lado positivo para a exposição: “Guardando as informações mais sensíveis com relação à identidade do agressor, expor a violência pode encorajar outras mulheres a buscar ajuda também”, explica.

Não deixe de postar sua história se você sente que isso pode ajudá-la.

“Expor me ajudou a encontrar redes de apoio”

A tatuadora Patricia Lopes, 37, conta ter sido espancada pelo ex-companheiro há três meses, em São Paulo. Conseguiu fugir graças a uma amiga que estava por perto e escutou seus gritos de socorro. Com o rosto deformado, publicou um vídeo em seu perfil em que acusava o ex de ter tentado matá-la. Eles estavam juntos havia 4 anos, mas se conheciam desde a adolescência.

“Nunca quis expor a violência que sofria, mas ele quase me matou. Eu gritava por socorro enquanto tomava chutes e socos. A ideia foi mostrar como eu estava e provar na delegacia o que ele fez”, explica.

Ela conta que a ajuda que recebeu depois de postar o vídeo foi imensa. “Diversas advogadas, psicólogas e pessoas engajadas me procuraram, inclusive homens. Policiais quiseram entrar no caso. Também me marcaram em redes de apoio como o Justiceiras e o Um Novo Olhar, e através delas consegui tratamento e advogada. Hoje vivo de doação dos amigos e de pessoas que nem me conhecem.”

O caso está registrado na 9ª Delegacia de Defesa da Mulher (Pirituba), em São Paulo, e o homem, de 38 anos, é considerado foragido.

Instagram como arena para pedidos de ajuda

Em nota, o Instagram reconhece a importância de ser um local para debater violência sexual, mas diz que remove conteúdo que representa ameaça ou promove violência, abuso ou exploração sexual. “Encorajamos os usuários a entrarem em contato com os serviços de emergência caso encontrem algum comportamento que possa colocar a segurança de outras pessoas em risco”, diz a empresa em nota

A plataforma lembra ainda que no fim de 2019, a organização Think Olga e o Mapa do Acolhimento, projeto do Nossas.Org, lançaram uma robô virtual para ajudar mulheres vítimas de violência no Brasil, a Isa.Bot, com apoio com apoio de Facebook, Google e da ONU Mulheres. Nela, há informações e ferramentas para mulheres em situação de violência doméstica, como informar alguém de confiança sobre o que está acontecendo ou pedir que ligue diariamente. Em situações urgentes, há a linha telefônica policial, 190, e a linha de apoio específica para violência doméstica, 180.

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