A Rede Cerrado e o WWF-Brasil lançaram na última semana um álbum online para contar histórias e desvendar os mistérios da região central do Brasil, “Histórias do cerrado”.

Entre os depoimentos, há histórias de mulheres que carregam em suas vidas as riquezas do bioma e planejam um futuro no qual a natureza realmente importe.

No Mato Grosso do Sul, Rosane Sampaio, conhecida como Dona Preta, é uma das lideranças do assentamento de reforma agrária Andalucia, que vive de práticas sustentáveis.

O Andalucia é conhecido por ser um núcleo de desenvolvimento sustentável do Cerrado, onde Preta lidera o Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado, uma espécie de laboratório que ajuda famílias agricultoras na geração de renda, uma iniciativa que nasceu de um grupo de mulheres.

“Fazemos a conservação das espécies, resultado de um longo processo de arborização, que é bastante visitado pela fauna. A gente faz o extrativismo dos frutos nativos, transformando em pães, em doces, em farinhas”, explica.

Os frutos locais são comercializados dentro e fora do estado, gerando renda e capacitação para as famílias do assentamento.

Início

Preta vive no Andalucia há 24 anos, ao lado de 163 famílias. Quando o espaço foi conquistado durante seus primeiros anos de militância na década de 1990, sustentabilidade ainda não era um assunto bem discutido.

Até que em 2005 uma visita da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul ensinou aos moradores como cuidar e viver da natureza.

Com o passar do tempo, as famílias do Andalucia desenvolveram técnicas para a coleta de frutos, criando um manual escrito coletivamente, o Manual de Boas Práticas, que contém instruções para colher sem prejudicar a flora e fauna. Como, por exemplo, não coletar mais de 70% dos frutos, levando em conta que as árvores também irão alimentar animais.

O Centro acaba sendo também um espaço de fortalecimento político feminino. As mulheres do assentamento integram o Cerrapan, uma rede de articulação de mulheres produtoras do Cerrado e Pantanal. “A rede tenta fazer esse apoio umas com as outras. A gente se sente tão abalável, tão agredida e atropelada quanto o ambiente que a gente habita”, conta

Ações

Depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o ecossistema brasileiro que mais sofreu com a ocupação humana. De acordo com dados divulgados pelo WWF Brasil, apenas 0,85% do Cerrado encontra-se oficialmente em unidades de conservação. Os fatores de risco para o bioma são a expansão da agricultura e da pecuária e impactos ambientais causados por garimpos, que contaminaram os rios com mercúrio.

Dona Preta (Foto:  Arquivo Ecoa-Ecologia e Ação)
Dona Preta ensina sobre a cadeia produtiva do Baru, fruto nativo do Cerrado.. (Foto: Arquivo Ecoa-Ecologia e Ação)

“Nós mapeamos espécies e também fizemos um projeto com o movimento agrário para levar nossa proposta para outros assentamentos. Buscamos capacitação para a comunidade e essa troca foi crescendo de maneira que hoje é uma atividade que gera renda e desenvolvimento. Temos uma autoestima muito boa porque conseguimos mudar não só o aspecto do relacionamento com a terra, mas o relacionamento com as famílias”, conta.

Preta explica que a natureza se adapta às agressões externas, mas nós nem tanto. “Ela vai viver essa avalanche de destruição que está acontecendo. A partir do momento que começarmos a respeitar estilos de vida como o nosso como um serviço prestado a humanidade, aí vamos começar a dialogar sobre o equilíbrio que é necessário para a humanidade continuar existindo”, comenta.

Fortalecer nossas raízes

Antes de se tornar referência em sustentabilidade, Preta viveu em barracos e ralou muito. Sentia-se desvalorizada e, hoje, tem orgulho de suas raízes.

“Fui uma criança que tinha vergonha de ser boia-fria porque a gente sempre foi discriminado, mas temos que lembrar o quanto é importante fortalecer as nossas raízes e defender nosso modo de vida”, conta. A conversa por telefone foi feita no celular do marido de Preta, companheiro de luta com quem está junto desde os 14 anos.

“A reforma agrária me deu o que tenho hoje. Eu não tinha uma casa, não tinha um endereço para criar meus três filhos. Conquistamos a terra onde podemos tirar sustento e dignidade”, diz. Ela pede por um “olhar mais aguçado” do poder público sobre os agricultores familiares, como ela e os inegrantes do Andalucia.

“Vai chegar um momento, que está próximo, em que a humanidade vai precisar refletir e fazer a escolha certa. Falo sobre tudo que existe por cima da terra: plantas, homens, água, tudo. Nós dependemos de cada um desses elementos para viver bem. Quando me sentir parte dessa natureza, sabendo que o que eu estiver fazendo aqui vai estar beneficiando gerações que eu não devo conhecer, vou estar bem”, completa.

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