O coronavírus chegava ao Brasil para ficar. O número de casos confirmados (428) e de mortes (4) aumentava, mas ainda havia muita dúvida sobre quais medidas de proteção deveriam ser tomadas. Enquanto governadores dos estados mais atingidos, como Rio de Janeiro e São Paulo, já colocavam em vigor a quarentena, o presidente Jair Bolsonaro começava a firmar seu discurso anti-isolamento.

Foi então que Ana Tereza Vasconcelos, 57, percebeu que era hora de agir. “Com tantos diagnósticos positivos, precisávamos nos preparar para começar os sequenciamentos do vírus o mais rápido possível”, diz ela que é coordenadora do laboratório de bioinformática do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em Petrópolis (RJ).

O sequenciamento genético é um retrato detalhado do vírus. Permite contar sua história, entender detalhes sobre a estrutura e o funcionamento do microorganismo, saber de onde ele veio e como se comporta. A partir dessas informações, uma série de medidas podem ser tomadas. Inclusive decidir se o melhor caminho é o isolamento horizontal (quando toda a população deve ficar em casa) ou parcial, que restringe o contato apenas de pessoas infectadas ou mais vulneráveis.

Para realizar a empreitada, Ana reuniu, a toque de caixa, o equipamento, o material e a equipe necessários — incluindo pesquisadores de fora do estado. A ideia era traçar o genoma do maior número possível de amostras do vírus para entender detalhes sobre a ameaça. Para isso, conseguiu amostras de pacientes do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Sul.

O maior desafio, no entanto, viria a seguir: garantir que o material chegasse a Petrópolis. “Como diversos voos já tinham sido cancelados e as estradas começavam a fechar, havia o risco real de que não conseguíssemos”, conta. Foi um dia inteiro de tensão até que, por volta das 18h da sexta-feira, 20, as amostras chegaram trazidas de avião cargueiro sob responsabilidade do virologista Renato Santana Aguiar, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“Paramos todos os outros projetos que estávamos tocando e passamos a nos dedicar exclusivamente à covid-19”, diz Ana Tereza. Em 48 horas, o time formado por mais sete pesquisadores e pesquisadoras identificou o genoma de 19 amostras do vírus causador da pandemia.

A análise realizada pelo LNCC comprovou que o coronavírus já circulava dentro do Brasil — não era mais apenas trazido de fora. Além disso, mostrou que os vírus circulantes no Brasil herdaram características de outros, sobretudo dos europeus, mas já haviam assumido uma identidade típica daqui. “Mostramos, com provas científicas, que o coronavírus já circulava entre os brasileiros e, por isso, medidas de isolamento rigorosas eram realmente necessárias”.

Com mais de 30 anos de carreira, Ana Tereza já teve a experiência de lidar com uma variedade enorme de amostras — das humanas, passando pelas tumorais, até às de microorganismos perigosos porém comuns, como os causadores da dengue e da febre amarela. Também já teve atuação central em momentos desafiadores para a ciência brasileira, como durante a epidemia de zika, quando o LNCC trabalhou com as amostras do vírus. Mas a pandemia trouxe muitas novidades.

É a primeira vez que ela lida com um coronavírus, com uma crise sanitária tão grave e também com técnicas e dispositivos novos. O sucesso do sequenciamento das 19 amostras contou com o bom desempenho de um novo aparelho, testado pela equipe na ocasião. Trata-se do Mini-Ion, um sequenciador portátil, um pouco maior do que um pen-drive, muito mais rápido do que os convencionais e que permite fazer leituras genômicas fora do laboratório, como em áreas remotas da África, onde também já foi usado. “Não tinha certeza se o dispositivo ia funcionar conosco. E tudo tem saído muito bem”, diz.

Apesar de reconhecer e se preocupar com a gravidade do momento, Ana mantém uma postura otimista. Tem tentado aproveitar o tempo em casa para momentos de afeto e lazer com os filhos. “Quando encerro meu trabalho, lá pelas oito, nove horas da noite, abro um vinho, preparamos algo todos juntos na cozinha e assisto a um filme com os meninos”, diz.

Daqui a alguns meses, quando o período mais crítico passar — “e vai passar”, garante —, ela acredita que sairemos com alguns ganhos. “Tem sido e será um momento muito dramático, mas acho que vamos valorizar nossas interações humanas, a convivência com quem amamos, e que seremos mais solidários. Assim eu espero.”

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