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Conheça Maria, cientista, mãe e empreendedora 

Conheça Maria, cientista, mãe e empreendedora

Lendo o currículo da professora do Departamento de Física da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Maria José Valenzuela Bell, é irresistível imaginar o estereótipo do cientista excêntrico, andando apressado por um laboratório com seu jaleco branco e coberto de pó de giz de tanto rabiscar fórmulas num quadro negro.

Não é difícil entender de onde vem esse clichê: a pesquisadora é destaque numa área que, como tantas outras, tinha fama de ser um campo dominado por homens — segundo Maria José, antigamente, nas instalações voltadas para o curso, não existiam nem banheiros femininos.

Sua longa lista de trabalhos, como títulos quase impronunciáveis, também não ajuda na imagem do cientista apressado: com uma média de três artigos publicados por ano, a professora recebeu a mais alta classificação no ranque de pesquisadores do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Mãe, cientista e empreendedora

Conhecendo a professora, porém, a quebra de expectativa é imediata. Dona de uma tranquilidade que não sugere nada da rotina corrida de alguém que se divide entre as funções de pesquisadora, empreendedora e mãe, Maria José contou um pouco sobre como é conciliar a vida familiar com o trabalho acadêmico, com um sorriso fácil e bom humor (e nenhum sinal de giz).

Mãe de duas filhas (de oito e três anos) e casada com um companheiro de Departamento, seu talento para a multitarefa também parece se aplicar aos projetos na Universidade.

Atualmente dedicada à pesquisa no campo de alimentos, ela e seus colegas do Mestrado Profissional em Ciências e Tecnologia do Leite e Derivados conseguiram combinar a física aplicada com a realidade cotidiana de muita gente, desenvolvendo tecnologias para detectar fraudes no leite.

Mesmo se desdobrando com o cronograma apertado, a pesquisadora parece estar “no lugar que pediu a Deus”, como ela mesma define. Nascida no Chile, a pesquisadora deixou o país, acompanhada pela sua família, na época da ditadura chilena.

Depois, passou por São Paulo e, então, chegou a Juiz de Fora, local em que vive há mais tempo. Após 20 anos de carreira, Maria José diz estar colhendo os frutos do trabalho e encontrando satisfação na vida pessoal.

E, ainda, buscando novos desafios, agora como sócia da Bell Anjos, empresa que fundou com seus colegas para comercializar um dos inventos desenvolvidos em suas pesquisas.

Durante a entrevista, Maria José explicou sua rotina, as adaptações no trabalho após a maternidade e se mostrou otimista quanto à igualdade de gênero na academia.­­­

(Foto: Géssica Leine/UFJF)

 

Portal da UFJF  Você concluiu a graduação, há quase 20 anos, em curso famoso por ter uma maioria de alunos masculina. Como era esse ambiente, então?

Maria José Valenzuela Bell – Era realmente um ambiente muito masculino, talvez com uma proporção de 10 para uma. Tem até uma história aqui no Departamento que antigamente não tinha banheiro feminino no Instituto de Ciências Exatas (ICE). As Ciências Exatas eram, e ainda são, uma área com um raciocínio considerado bem masculino. Mas isso está mudando. Inclusive, eu estou vivendo uma situação inédita, que é ter mais orientandas do que orientandos na pós-graduação.

Antigamente, não tinha banheiro feminino no ICE. As Ciências Exatas eram, e ainda são, uma área com um raciocínio considerado bem masculino. Mas isso está mudando. Inclusive, eu estou vivendo uma situação inédita, que é ter mais orientandas do que orientandos na pós-graduação.

Você sofreu algum tipo de machismo ou outra resistência por conta disso?

Existe uma diferenciação, isso é inegável. Fica sempre aquela dúvida sobre as meninas: “Será que vai dar conta do curso? Será que vai casar e desistir?”. O machismo, quando ocorre, é velado. Em tom de brincadeira. Até pelo ambiente: não fica bem para uma pessoa esclarecida ter um pensamento machista. O que varia muito é a reação da mulher: algumas não ligam, outras… Dão até tapa (rindo). Mas eu não posso dizer que isso afetou muito as minhas decisões, nem lembro uma situação que tivesse me feito pensar em largar tudo.

Você tem duas filhas, não é isso? A maternidade apresentou um desafio maior do que o machismo?

Sim, duas filhas. Pequenas! O machismo é externo, cabe à pessoa trazer isso pra si ou não. Agora, a maternidade afeta muito diretamente a sua vida, obviamente. Porque criou preocupações que eu não tinha antes, como cuidar da casa, pensar no que as meninas vão comer. Então eu tive que refazer a minha forma de trabalhar e de me cobrar. A criança quer que você fique lá, ela não quer saber se você é doutora ou tem que dar aula. E isso demanda um tempo que a pesquisa não quer que você tenha.

Mas, ainda assim, você nunca interrompeu a carreira.

Não. Minha cabeça não deixa a pesquisa, mesmo com as meninas, porque é o que eu gosto de fazer. Faz parte de mim. Mas teve que haver uma adaptação. O trabalho de pesquisa não tem horário, não importa muito se você é homem ou mulher. E, se deixar, você fica 24 horas por conta disso. Isso não funciona mais com as crianças. Por outro lado, uma interrupção na carreira tem um preço alto. Você pode reparar que, nos anos em que as meninas nasceram, eu produzi menos. Mas ainda produzi. É um esforço, mas o retorno vale a pena.

E como funciona a dinâmica de ser casada com um colega?

Acho que se não fosse por ele, eu talvez não tivesse conseguido continuar a carreira. Como ele também é pesquisador, e nós trabalhamos no mesmo projeto, ele entende os problemas e a gente consegue dividir as coisas, se revezar. Se fosse outra pessoa, talvez não entendesse.

Depois de vinte anos dedicados à Física, está sendo bom colher os frutos agora, tanto no laboratório quanto com as meninas. Posso dizer que eu estou no melhor momento da minha vida.

E isso é engraçado. Eu estava lendo uma pesquisa, outro dia, que dizia que 70% das mulheres físicas são casadas com outros físicos. Aqui mesmo, no Departamento, são seis casais. É um número bem expressivo, né?

Como tudo isso alterou sua rotina?

O horário, por exemplo. Não importa o que eu estiver fazendo, 17h eu saio daqui e busco as meninas na escola. Daí, até umas 22h, quando elas vão dormir, não adianta me ligar, mandar e-mail, porque é o tempo que eu tenho para ficar com elas. Então é das 22h até mais ou menos a 1h que eu pego para escrever, responder e-mail… E tem gente que responde!

Devem estar com as crianças, também.

Sim, não sou só eu! (rindo) Tem algumas mulheres que eu conheço, e homens também, que trabalham nesse horário, o que não era muito comum. A maternidade é um dos motivos, mas não é só isso. A vida pessoal e a profissional misturou muito nesses anos.

Outra coisa que mudou com a maternidade foi que eu nunca mais consegui começar e terminar uma tarefa numa vez só. E isso atrapalha sua concentração, né? Outro dia eu recebi uma carta da operadora do celular me dizendo que eu estava com crédito na casa, porque tinha pagado a mesma conta duas vezes.

(Foto: Géssica Leine)

Sobre misturar. Você costuma trazer as suas filhas para o trabalho, ou leva para os simpósios?

Sim, tinha até uma mesinha com umas coisas de colorir para elas aqui na sala. Elas vêm, deixam esse Departamento de cabeça pra baixo. Normalmente, quando a gente precisa viajar, vamos todos. Eu e meu marido ficamos nos revezando entre assistir as palestras e ficar com as meninas. A mais velha, agora, até pergunta: “É simpósio, mamãe? Ah! Então pode ir sozinha”.

O machismo, quando ocorre, é velado. Em tom de brincadeira. Até pelo ambiente: não fica bem para uma pessoa esclarecida ter um pensamento machista. Mas eu não posso dizer que isso afetou muito as minhas decisões, nem lembro uma situação que tivesse me feito pensar em largar tudo.

E na pesquisa, tem algum projeto que se destaque mais?

As pesquisas na área de laticínios, principalmente. O pessoal vem pegando pesado, adulterando os produtos com umas coisas absurdas. E a gente percebeu que não existia um método rápido para verificar isso. Então, você mandava o leite para o laboratório e, dois meses depois, eles respondiam: “sabe esse leite que você já tomou? Então…”.

A gente vem desenvolvendo pesquisas e tecnologia em cima disso, e as pessoas entendem e se interessam, porque todo mundo consome. Isso tem sido muito bom. Os outros projetos são na física mais teórica, mesmo, é mais fechado. Com esse, existe um diálogo com a comunidade. Nós até abrimos uma empresa, pra comercializar um dos aparelhos. Saiu daqui, da UFJF.

Como está sendo a realidade de empreendedora?

Bem interessante. Estou aprendendo umas coisas que eu nunca imaginei. Até fazer uma nota fiscal. Porque cientista não tem nada de gestor, né?  Acho que, depois de 20 anos dedicados só à Física, está sendo bom colher os frutos agora, tanto no laboratório quanto com as meninas. Posso dizer que eu estou no melhor momento da minha vida.

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