Toda a vida da alagoana Indira Xavier está estruturada em torno do trabalho que ela faz para auxiliar mulheres que sofrem violência. Integrante do Movimento Nacional Olga Benário, é a coordenadora da Casa de Referência Tina Martins, abrigo instalado em um imóvel no centro de BH e cedido pelo Estado.

“Me coloquei à disposição, peguei meu filho, meus livros e expliquei para minha família a grandeza disso tudo e do quão significativa é essa ação”, explica.

Mãe solo de um menino de 8 anos, Indira sempre leva o filho com ela para a Casa e para alguns eventos gerais do Movimento. “Ele está nesse espaço comigo e vai vendo como as mulheres ficam feridas, o que com certeza muda a sua percepção sobre violência”, continua.

Indira Xavier atua na defesa das mulheres há mais de dez anos. Com a Casa Tina, o objetivo é acolher e dar assistência especialmente quem está na periferia e sofreu ou ainda sofre abusos e agressões. Algumas dessas mulheres precisam deixar o lar, acompanhada dos filhos, e encontram no projeto um endereço onde ficar.

“Não é o governo ou o Estado fazendo mais uma política. São mulheres organizadas, em sua imensa maioria com históricos de violência, que se dispõem a construir um projeto que muda a vida de outras mulheres e a sua própria vida”, continua ela.

A Casa Tina Martins é resultado da ocupação que o Movimento Olga Benário fez em 8 de março de 2016, Dia Internacional da Mulher. “Foi a primeira ocupação de mulheres da América Latina”, conta Indira. “Nós entramos em um espaço da antiga faculdade de engenharia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Nessa mesma época, também fizemos uma denúncia, porque uma das medidas do governo Dilma era construir a Casa da Mulher Brasileira, em Minas. Mas o terreno destinado para isso foi transformado em um estacionamento para carros da polícia. Então, eram duas iniciativas atuando juntas: a de pedir mais espaços para que as mulheres pudessem continuar vivas e também a de denunciar a ocupação desse espaço”, explica ela.

Foram 87 dias de resistência com a ocupação até o Estado ceder um imóvel para se receber as mulheres vítimas de violência.

Diante dessa situação, que muitas vezes é de tensão e enfrentamento para conquistar mais direitos (ou até fazer valer aqueles que já existem), somou-se, em 2020, o desafio de atuar dentro da pandemia de Covid-19 no país.

“Logo no começo, fomos acompanhando as pesquisas dos países que estavam avançados na expansão da doença e vimos que havia um aumento do pedido de ajuda de mulheres. Imaginamos que, a partir da necessidade de isolamento social, elas estariam mais vulneráveis”, conta a advogada.

Mas não era só isso. “Outros aspectos também deveriam ser considerados como o grande desemprego, que afetou muito, nós, mulheres, além do alto índice de sobrecarga mental”, diz.

Segundo a advogada e militante, percebeu-se que, com a pandemia, as mulheres estão tendo até quatro jornadas de trabalho em suas rotinas dentro de casa.

“Muitas delas só conseguem produzir o que precisam do trabalho de madrugada. Fizemos os atendimentos remotos e são inúmeras as mulheres que ligam para conversar, para se sentirem acolhidas porque não estão dando conta com a pressão da sociedade. Ao mesmo tempo, como nossos serviços passaram a funcionar online, pessoas mais humildes não conseguem utilizá-los”, enfatiza Indira Xavier.

“É preciso fazer valer os mecanismos e dispositivos assegurados nessa lei para fazer com que as mulheres continuem vivas”

Indira Xavier

A atuação em campo praticamente todo o tempo faz com que a advogada seja bastante crítica às políticas públicas de proteção à mulher, principalmente no governo atual.

“Eu acho esse tema bem sério, porque, ultimamente, temos visto um movimento em contramão. Todos os dados estatísticos apontam para um aumento de violência contra as mulheres, não só durante a pandemia”, reforça.

“Infelizmente, nos últimos anos houve um desmonte do pouco que foi construído e é importante resgatar isso. A ministra da Família [Damares Alves] não investiu um real do recurso que já estava destinado às casas da mulher brasileira que foram construídas. Os estados e municípios seguem na mesma lógica”, explica ela.

Indira ressalta a importância da Lei Maria da Penha, a mais eficaz ferramenta que o Brasil tem atualmente para combater a violência de gênero. Mas enfatiza que, sozinha, a medida não age como deveria nessa questão: “É preciso fazer valer os mecanismos e os dispositivos assegurados nessa lei para fazer com que as mulheres continuem vivas”, diz.

“Ficou evidente, nessa espécie de ‘pós-pandemia’, que precisamos de acordos e decretos para auxiliar mulheres a se desenvolverem e voltarem ao mercado de trabalho. Caso isso não aconteça, ainda haverá aumento significativo na violência. Os dados estão todos aí para mostrar”, encerra a advogada.

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