Imagine essa situação: conhecer uma pessoa atenciosa, carinhosa e que demonstre amor o tempo todo. Essa pessoa se torna cada dia mais presente e aos poucos vocês começam a namorar. Um dia, vocês ficam noivos e com a rotina vem as discussões. Até o momento em que essa pessoa te agride. No outro dia, vem o arrependimento, choro e o pedido de uma chance para mudar. Mas não muda e as situações só pioram.

Com tempo, as brigas se tornam mais frequentes e, com elas, as agressões mais intensas. Enforcamento, tapas, socos além de humilhação e as chantagens psicológicas. Você sente medo, se sente fraca. Olha ao redor e tudo parece girar em torno dele.

Ele te xinga, diz que você não é nada sem ele. Você acredita e cada vez mais se afunda. Deixa de ver sua família, se afasta dos amigos, ele confisca seu celular, te proíbe de sair de casa, qualquer situação é motivo para uma explosão e mais violência. A sua vida é chorar e imaginar o dia que isso possa acabar.

Essa poderia ser uma história fictícia, mas não é. Wellen de Lima Godoy sofreu essas violências por três anos até decidir se separar do agressor. Muitas mulheres vivenciam a violência dentro de seus lares cotidianamente.

Elas não conseguem achar motivos e forças para romper o ciclo de dependência. Foi para ajudar essas mulheres que a pedagoga de 29 anos criou em 2019 o Projeto Corações de Algodão Doce.

Wellen idealizou o programa ainda enquanto morava com seu ex-companheiro e vivia o terror e o medo dentro de casa. Segundo ela, tudo começou como os relacionamentos normais, até que as brigas tornaram-se agressões.

“No começo do relacionamento era tudo maravilhoso. Até mesmo na frente das pessoas, era o homem perfeito. Quando fui morar com ele tudo mudou. Além de me trancar nos cômodos e me bater com frequência, ele contava o tempo que eu levava para ir nos lugares, vigiava tudo no meu celular, questionava tudo, era uma tortura”, descreve.

Além de violência física, Wellen enfrentou abusos psicológicos e morais. Em um episódio, seu ex-noivo a humilhou em público, com gritos e insultos. Um trauma vivenciado por ela e por seu filho pequeno, que muitas vezes presenciava as agressões e tentava defendê-la.

“Eu entrava em um conflito comigo mesma porque eu sempre pensava “ele não é assim”. Eu tinha esperança que ele pudesse mudar e tentei várias vezes ajudá-lo.

Eu sempre perdoava. Mas chegou um dia que não deu mais. Ele quase queimou meu cabelo no fogão, ele me trancava nos cômodos da casa e me batia, me batia muito. Eu tinha muito medo que ele fizesse algo com meu filho”, relata.

Esse capítulo na vida de Wellen só terminou quando ela decidiu colocar um ponto final na situação, principalmente, pelo medo da morte.

“Chegou um dia que eu não consegui mais. Não foi simples, foi um processo muito difícil, eu tinha uma dependência emocional muito grande. Quando eu resolvi sair ele tentou me agredir, pegou meu pescoço, até que eu ameacei gritar e ele recuou e saiu”.

Naquela mesma noite, fazendo as malas, Wellen lembrou que já tinha escrito um projeto de ajuda às mulheres que passam por violência doméstica e resolveu que deveria colocá-lo em prática. “Naquela noite eu encontrei um objetivo de vida. Ajudar as mulheres que passaram e passam por tudo aquilo que eu também passei”.

Nasce o Corações de Algodão Doces
Apesar de ser destinado ao público feminino – que hoje é maior alvo de violências e abusos – o projeto abrange qualquer pessoa que esteja passando por alguma situação de risco. Após escrever o projeto, a pedagoga foi atrás de parceiros para torná-lo uma realidade através de uma rede de apoio. Foi com a ajuda do vereador Paulinho Sestrem que o grupo pode dar os primeiros passos rumo a ações práticas.

“Nós fomos em vários órgãos do município: delegacia, núcleo de educação, dpcami, polícia militar e foi alí que conseguimos patrocínios. Até desfilamos com camisetas doadas na Fenarreco. Hoje, nosso projeto tem uma parceria com a rede na qual as mulheres identificadas em situação de violência são destinadas ao nosso grupo”.

Com muito trabalho e colaboração de voluntários o projeto ganhou forma e está funcionando há sete meses. Atualmente, 11 mulheres participam dos encontros que contam com duas psicólogas e uma advogada.

“As psicólogas fazem todos acompanhamento psicológico das mulheres auxiliando suas histórias, dando orientações, ouvem e dão suporte à elas. Já a advogada presta assistência jurídica seja para fazer o Boletim de Ocorrência, abrir processos de divórcio, pedir a medida protetiva, pensão alimentícia entre outros serviços”.

Além dos encontros, o projeto ainda tem um grupo no WhatsApp para assistência às mulheres que não conseguem participar fisicamente.

Muitas vítimas chegam até Wellen através da divulgação dos próprios voluntários, de psicólogos, da imprensa e das mídias sociais. Mas para ampliar essa rede de cooperação, e atingir cada vez mais mulheres, os projetos para 2020 começaram grandiosos.

“Um dos nosso objetivos este ano é a criação do grupo de apoio para as crianças que vivenciaram a violência, assim como aconteceu com meu filho. Teremos o apoio psicológico para recuperar e tratar essas crianças que foram traumatizadas. Outro projeto é a inserção de terapia Holística para autoestima das mulheres’, conta.

A pedagoga relata que as mulheres chegam ao projeto ainda sofrendo a violência dentro de casa, outras estão em um processo de recuperação. “Nossa essência é sempre reafirmar ‘você não está sozinha, sua dor é nossa’. Sabemos que só quem viveu a violência sabe como o caminho para sair dele é árduo e ter ajuda é fundamental”.

Como ajudar o projeto?
Para continuar com os projetos e ampliar o grupo que, em conjunto com apoiadores, o Corações de Algodão Doce está promovendo uma feijoada beneficente para arrecadar verbas.

“A gente precisa de verbas para registrar o projeto como uma OCIP (Organização da sociedade civil de interesse público), só assim conseguiremos patrocinadores públicos ou privados para nossas iniciativas serem efetivadas”.

O objetivo é que cada vez mais o projeto consiga financiamento para ampliar seu atendimento na cidade. A feijoada acontecerá dia 1º de Fevereiro às 11h na casa da montanha, com espaço recreativo para crianças e músicos regionais. No valor de 30 reais.

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