Quando, em novembro de 2019, Paula Crespi, 36, deu à luz ao seu primeiro filho, ela viu nascer também o negócio que acabava de gestar com a colega Flavia Deustch, 37, a Theia, uma startup que busca conectar gestantes a profissionais de várias áreas da saúde.

Antes da empreitada, as duas tiveram sólidas carreiras no mundo corporativo e, depois de um MBA fora do país, decidiram se arriscar no mundo das startups. O negócio próprio, no entanto, só veio alguns anos depois, quando elas viram na saúde da mulher uma demanda que poderia ser solucionada com a ajuda da tecnologia.

“O setor de saúde foi feito por homens e para homens, e a gestação é o momento em que isso fica mais visível. Descobri nas minhas duas gestações que, apesar de ter acesso ao melhor da medicina e a ótimos profissionais, senti muito medo e insegurança”, diz Flavia. “Nessa fase, a gente é percebida como uma barriga que carrega um bebê, não como um todo, uma pessoa que precisa de apoio e cuidado coordenado”, afirma.

Daí surgiu a ideia da Theia, uma paltaforma que oferece acesso presencial e virtual a uma equipe multidisciplinar humanizada, que acompanha a mulher no pré-natal, parto e pós parto. Entre os profissionais listados estão nutricionistas, preparadores físicos, psicólogos, obstetras, doulas, terapeutas pélvicas e consultoras de sono e de amamentação.

O nosso objetivo é que a mulher esteja no centro do cuidado, que seja respeitado o seu direito de escolha, que ela seja protagonista da sua história. A gente acredita muito nos benefícios do parto normal e do aleitamento materno, mas confiamos na mulher e entendemos que ela conhece seu corpo. Então, se ela decidir ter uma cesariana, nós vamos apoiá-la também”, diz Paula.

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde (OMS), o índice razoável de cesáreas é de 15% dos nascimentos. No Brasil, no entanto, 55,6% dos partos são cesarianas, número que sobe para 84,6%, quando se trata dos realizados apenas no sistema privado de saúde. Sem indicação médica, esse tipo de parto ocasiona riscos desnecessários à saúde da mulher e do bebê, já que aumenta em 120 vezes probabilidade de problemas respiratórios para o recém-nascido e triplica o risco de morte da mãe.

Gestar um filho, parir um empresa

O sonho da Theia surgiu no fim de 2018, quando Flavia convidou Paula para um jantar de negócios. Nessa época, Flavia tinha uma ideia — usar tecnologia no setor de saúde- – e dois filhos, um deles, recém-nascido. Paula, por sua vez, sonhava em empreender com outra mulher e mudar o ecossistema masculino das startups.

“Sou filha, neta, sobrinha, irmã e nora de médicos. Eu cresci respirando esse universo da saúde”, conta Flavia. “Na infância, eu me lembro do meu pai falando como era ‘linda’ uma operação de apendicite e da minha mãe contando histórias de bebês com 600 gramas que tinham nascido prematuros”, lembra a administradora, sobre a vontade de empreender nesse setor.

No caso de Paula, pesou a relação com a irmã, pediatra, e a descoberta da gravidez durante o planejamento do novo negócio.

Depois da conversa inicial, as duas tiraram uns meses de descanso e começaram oficialmente o projeto em 2019. Em março, quando embarcaram juntas para os Estados Unidos a fim de conhecer startups e se inspirar em modelos por lá, Paula tinha acabado de descobrir que estava grávida. “Eu me lembro que ela passou mal a viagem inteira”, lembra Flavia.

FemTech: negócio de mulheres para ajudar outras mulheres

As duas se conheceram quando saíram do Brasil para fazer um MBA nos Estados Unidos, em 2012. Na volta, já tinham vontade de empreender, mas decidiram, de forma separada, entrar em negócios que já estivessem caminhando.

“Todos os nossos colegas homens decidiram empreender, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, enquanto as mulheres do curso viraram o braço direito dos fundadores. A gente também tinha capacidade, mas eles tiveram coragem”, conta Paula. Isso acontece, explica, porque uma das principais barreiras é a falta de referências femininas no ecossistema de startups.

As listas de empreendedores de sucesso costumam ter só homens brancos. A gente até se inspira, mas não se enxerga naquele perfil”, diz Paula.

Foi por esse motivo que, ao lançar a Theia, as duas passaram a usar o termo FemTech, para destacar que se trata de uma startup de mulheres pensada para resolver problemas de mulheres. “Hoje eu me sinto intimada a fazer o nosso negócio dar certo também para servir de exemplo para outras empreendedoras.”.

Experiência e network foram diferencial

Quando decidiram lançar seu próprio negócio, o grande diferencial da dupla era já conhecer bem o mundo das startups e ter acesso aos investidores. Das experiências anteriores, elas também recrutaram alguns dos funcionários que trabalham hoje na Theia, mão-de-obra capacitada e que tinha as habilidades que elas precisavam.

“Sem dúvida, ter experiência anterior e uma rede de empreendedores próximos ajuda muito, porque a gente entende que algumas dificuldades são inerentes ao negócio e já sabe como superá-las”, diz Paula.

Para ela, o fato de as duas já terem trabalhado em startups antes faz com tenham uma visão menos romântica e mais realista do empreendedorismo. “Isso nos deu mais resiliência e maturidade para lidar com os altos e baixos do processo. Além disso, quando alguma coisa acontece, a gente sabe para quem correr, tem com quem chorar e pedir ajuda”, afirma.

Com bom conhecimento do mercado, elas souberam vender seu peixe. Em 2019, a Theia recebeu R$ 7 milhões de investimento da Kaszek Ventures (que apoiou empresas como Gympass, Nubank, Loggi e Quinto Andar) e da Maya Capital (um fundo liderado por mulheres). Por conta da rodada de investimentos, a Theia não divulga o faturamento.

“Pandemia acelerou implementação da telemedicina” A ideia inicial do negócio era oferecer atenção integral em saúde da mulher, mas o cotidiano mostrou que, em um primeiro momento, o melhor seria focar na gestação, período em que a mulher se sente vulnerável e necessita de atenção multidisciplinar. “Para mim, que sempre fui muito workaholic, a descoberta da maternidade foi uma fase delicada, porque você se sente fragilizada de muitas formas diferentes”, conta Paula.

No primeiro ano, o foco da Theia eram as parcerias corporativas, para que a plataforma fosse oferecida como um benefício para os funcionários. O dia a dia, no entanto, fez as sócias mudarem o rumo, para trabalhar diretamente com o público final.

“No começo, a gente entendia que o melhor caminho seria via empresas, que é quem paga a conta dos planos de saúde do Brasil, mas logo percebeu que, nessa fase de desenvolvimento do produto, e não de escala, tinha que estar mais próximo da usuária, que é a mulher”, afirma Flavia.

Como já nasceram focadas em oferecer atendimento por telemedicina, a Theia saiu na frente quando a pandemia começou. Por conta da necessidade de isolamento social, muitas gestantes também passaram a evitar o contato presencial.

“Para nós, a questão nunca foi se a telemedicina seria implantada, mas quando isso ia acontecer. A pandemia só acelerou esse processo”, diz Flavia. A ideia agora é expandir o negócio para oferecer mais serviços em saúde da mulher, antes e depois da gestação. “Também pretendemos ampliar a oferta física para outras cidades”, explica Paula.

Gostou do conteúdo?
Lembre de deixar seu comentário

 

 

Saiba mais sobre o assunto em Universa
Para mais dados sobre famílias chefiadas por mulheres acesse RBA
Entenda a importância das chefes de famílias em PEL