As famílias devem ser núcleos de amor e de segurança. Mas você sabia que a maior parte da violência contra mulheres acontece no seio das famílias, pelos parceiros, o último lugar onde se esperaria que acontecesse?

Leia agora o relato de uma sobrevivente da violência doméstica.

Vanessa de Moura Raichaski, 21 anos, foi agredida no ano passado pelo então namorado, que foi preso semanas depois por descumprir a medida protetiva. O caso foi de rápida solução graças a uma rede de apoio, que encorajou a jovem de Içara (SC) a buscar a Justiça. Fortalecida, Vanessa acabou se tornando uma referência para amigas e conhecidas, que também decidiram romper o silêncio e denunciar a violência doméstica.

– Eu via aquilo como um príncipe, “ele está cuidado de mim”. Começou a ser cada vez mais abusivo, senha de rede social, onde eu ia tinha que pedir pra ele, chegou a um ponto que a roupa que eu ia colocar tinha que pedir para ele – recorda.

Nos momentos de discordância, os abusos físicos também começaram a aparecer: empurrão, beliscão, mas logo vinha o pedido de desculpas e a jovem deixava passar.

Foi na madrugada de 2 de agosto que, depois de questionar o namorado sobre uma mensagem encontrada no celular dele, é que o mundo desabou. Socos no rosto, chutes nas costas e costelas, tapas e a tentativa de sufocamento. Ao perceber que ele iria até o final, ela conta que fingiu um desmaio, e foi então que ele soltou o cordão que envolvia o pescoço dela.

– Eu estava em pânico, mas continuei fingindo, até que ele saiu. Foi aí que levantei e fui pedir ajuda – conta.

Os vizinhos de porta não atenderam aos gritos de socorro enquanto a jovem era agredida, e um deles só abriu a porta, contrariado, quando a jovem foi pedir o celular emprestado para acionar a polícia. Mesmo assim, disse para não ser envolvido e que não tinha ouvido nem visto nada.

Com a chegada das viaturas, Vanessa sucumbiu e caiu no meio da rua. Foi socorrida e levada de ambulância até o hospital. No dia seguinte, registrou boletim de ocorrência e fez exame de corpo de delito. Pediu a medida protetiva. Ela também precisou ser internada em um centro de atendimento psicológico em uma cidade vizinha, pois não conseguia retomar a rotina.

– Passou dois dias e ele começou a ir até a saída do meu trabalho, mandar mensagem. Eu ficava acordada à noite, pois tinha medo que ele invadisse minha casa – relembra. “ Eu nunca tinha passado por nada disso, era uma coisa distante, a gente vê na TV e acha que nunca vai acontecer conosco. Depois que falei, o que apareceu de amiga contando sobre elas. Uma fui junto na delegacia registrar boletim. Falar está ajudando as mulheres, e não tem porque ter medo, é preciso denunciar” encoraja a jovem.

Desde então, Vanessa também participa de grupos e fóruns na internet sobre o tema.

– Não vou dizer que estou 100%, pois estou me descobrindo de novo. Mas posso dizer que não tenho mais medo, que tenho uma rede de apoio, de pessoas que acreditam em mim. A gente sempre fala no grupo “se não tem para onde ir, vem para a minha casa, mas sai dai”. É assim, uma ajudando a outra para mudar essa história de violência.

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