“Tenho 21 anos e um filho de 2, o Pedro Lucas. O curioso é que eu só descobri que estava grávida quando ele nasceu – até então, eu achava que estava cólicas menstruais. Mesmo tanto tempo depois, me tornar mãe dessa maneira continua sendo assustador.

A história do meu parto começa no dia 8 de novembro de 2018. Eu já acordei me sentindo muito mal. Fui para minha aula no cursinho, onde estudava para prestar vestibular para medicina. Achei que fosse a menstruação prestes a descer.

Eu morava em Cuiabá, tinha 18 anos e dividia o apartamento com uma amiga. Quando voltei da aula, fui tomar banho enquanto esperava o lanche que pedi e percebi que, no chuveiro, a dor passou. Mas, assim que saí, voltei a sentir o incômodo, como se fosse uma cólica mesmo. Ia e voltava. Não lembro quantas vezes fui para o chuveiro. Até que, na última, sentei no chão e senti uma dor muito maior do que antes. Pensei: ‘Vou morrer pelada’.

Fiquei lá sem saber o que estava acontecendo. De repente vi a cabeça do meu filho saindo de mim.

A única coisa que pensei foi em segurar para que ele não batesse a cabeça no chão. Não fiquei desesperada. Não me veio nada na mente. Em nenhum momento parei para pensar no que estava acontecendo, só ia tentando resolver a situação. Não sei se foi a adrenalina na hora, mas é isso, só fui fazendo.

Usei uma faquinha sem serra para cortar o cordão umbilical. Dei banho no meu filho, amamentei e ele dormiu. Depois, com o cordão ainda preso em mim, fui procurar na Google para ver como resolver. Era a placenta, e fui para o vaso fazer força e ela saiu, como se tivesse saindo uma criança, só que menor.

Eu estava sangrando muito, depois fui saber, no hospital, que tive uma laceração. Coloquei uns cinco absorventes e fui limpar o apartamento, que dividia com outra garota, porque estava todo ensanguentado. Só fui procurar um médico um dia depois, à noite, quando contei para uma amiga o que tinha acontecido e ela disse para ir na mesma hora para o hospital.

“Mudança foi drástica, mas, hoje, vejo que foi muito positiva”

O fato de ter me tornado mãe dessa maneira continua sendo assustador para mim. Ninguém espera que aconteça o que aconteceu comigo, de ser tudo tão rápido. E eu também era muito nova. Por um tempo, pensei que, como foi no susto, muitos planos foram interrompidos, como se tivesse me atrapalhado. Mas hoje considero o nascimento do meu filho uma mudança muito positiva, apesar de drástica.

Me sinto mais madura na maneira de encarar a vida, os relacionamentos, a visão que tenho de família. Meus pais são ótimos avós para o Pedro Lucas. A avó paterna também fica com ele direto. Tenho um bom relacionamento com o pai do meu filho, que mantém contato com ele.

Deixei o sonho de estudar medicina para trás. Percebi que era mais uma vontade da minha mãe do que minha. Agora estou mais atrás do que faz sentido para mim. Esse ano vou começar a faculdade de publicidade, por exemplo. E me dedicar ao meu filho também, claro. O Pedro é uma criança muito carinhosa. Gosta de beijar e de estar sempre junto. Ele é meu grude.”

“Minha menstruação era desregulada e sangrei até o último mês”

No começo do ano passado, comecei a fazer vídeos no TikTok e um deles era com a brincadeira de contar algo sobre mim que ninguém acreditava. Falei rapidinho que tive meu bebê sozinha e que só descobri que estava grávida na hora do parto. Viralizou e muita gente começou a me mandar mensagem pedindo para contar a história toda. Logo depois gravei outro vídeo, que tem mais de um milhão de visualizações.

As pessoas ainda comentam dizendo que acham que é mentira, que até acreditam na gravidez, mas não no parto. Eu entendo. Até para mim é inacreditável.

Eu tive alguns sintomas durante a gestação, mas só depois de dar à luz me dei conta de que era por isso. Minha pressão, por exemplo, vivia caindo. Um dia passei mal no cursinho e fui no médico. Ele disse que era por causa do estresse pré-vestibular.

Cheguei a ir ao médico de novo uma semana antes de dar à luz, e ele perguntou quando tinha sido minha última menstruação. Eu respondi que foi no mês anterior e ficou por isso. Minha menstruação sempre foi muito desregulada. Então às vezes descia só um pouco de sangue, às vezes descia mais. Para mim, estava tudo normal.

Nesse período eu também engordei. Mas tinha saído de um relacionamento abusivo e estava muito magra. Então também não vi nada anormal. Dizia que o ganho de peso era descuido, alimentação ruim e foco nos estudos.

“Médica disse que se não tivesse ido ao hospital, poderia ter sofrido uma hemorragia”

Depois de ter meu filho em casa, fui para o pronto-socorro procurar ajuda. Cheguei lá e disse: ‘Acabei de dar à luz sozinha’. O médico olhou para mim e disse: ‘Quê? Como assim?’. Ele chamou um monte de gente, deixei todo mundo louco com a minha história.

Me encaminharam para um hospital obstétrico de ambulância. A médica que me atendeu fazia muitas perguntas e estava muito assustada. Passou a noite ao meu lado. Ela que ligou para a minha mãe para contar o que tinha acontecido porque eu estava com muito medo de falar com ela.

Fiz vários exames para saber se estava tudo bem, se poderia continuar amamentando. Eu nem poderia ter amamentado antes, na verdade. Como tive laceração, a médica teve que dar pontos. Por isso eu sangrava tanto. Ela disse que, se eu continuasse em casa, poderia ter tido uma hemorragia grave.

Palavra de especialista

A ginecologista e obstetra Roberta Grabert afirma que partos inesperados podem acontecer, mas é algo muito raro. “Na minha carreira, tive um caso desses há 30 anos. A jovem mãe achava que a irregularidade menstrual, o crescimento abdominal e os movimentos fetais eram problemas intestinais”, relembra. Os sangramentos relatados por Aymee, segundo ela, também podem ser confundidos com menstruação. “Mas toda irregularidade menstrual deve ser investigada sempre sob a hipótese da gravidez”, diz.

A médica ainda afirma que os riscos de um parto não assistido são enormes tanto para a mãe quanto para o recém-nascido. Não pelo nascimento do bebê em si, mas pela possibilidade de surgir alguma complicação e a necessidade de atendimento urgente.

“O parto, na maioria das vezes, não é complicado. Inclusive, a palavra obstetrícia vem do verbo ‘obstare’, que significa estar ao lado. O problema é que quando há um problema, temos muito pouco tempo para agir, e as consequências das complicações são graves.”.

Ela ainda alerta que depois de um parto domiciliar, é imprescindível que a mulher e o recém-nascido sejam examinados por um profissional de saúde.

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